Escreverei duas breves postagens com as idéias centrais dos textos A Liberdade e O Cógito, ambos nas obras Méditations métaphysiques (Meditações Metafísicas), respectivamente nos volumes IV e II. Vou começar pelo texto A Liberdade, explicando, anteriormente, um pouco da vida de Descartes e o foco central de toda sua análise filosófica. Pois bem, vamos lá!

René Descartes (nascido em La Haye en Touraine, a 31 de março de 1596 – Estocolmo, falecido a 11 de fevereiro de 1650) foi um filósofo, físico e matemático francês que destacou-se, sobretudo, por seu trabalho revolucionário na filosofia e na ciência, mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria - fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Por fim, ele foi uma das figuras-chave na Revolução Científica. Muitos especialistas afirmam que a partir de Descartes inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna. Décadas mais tarde, surgiria nas Ilhas Britânicas um movimento filosófico que, de certa forma, seria o seu oposto - o empirismo, com John Locke e David Hume. O pensamento de Descartes é revolucionário para uma sociedade feudalista em que ele nasceu, onde a influência da Igreja ainda era muito forte e quando ainda não existia uma tradição de "produção de conhecimento". Aristóteles tinha deixado um legado intelectual que o clero se encarregava de disseminar. Foi um dos precursores do movimento, considerado o pai do racionalismo, e defendeu a tese de que a dúvida era o primeiro passo para se chegar ao conhecimento. Descartes viveu numa época marcada pelas guerras religiosas entre Protestantes e Católicos na Europa - a Guerra dos Trinta Anos. Viajou muito e viu que sociedades diferentes têm crenças diferentes, mesmo contraditórias. Aquilo que numa região é tido por verdadeiro, é considerado ridículo, disparatado e falso em outros lugares. Descartes viu que os "costumes", a história de um povo, sua tradição "cultural" influenciam a forma como as pessoas pensam naquilo em que acreditam.
A partir de essa breve biografia retirada da Wikipédia, sabe-se o básico sobre René. No entanto, para a compreensão do breve resumo dos textos sobre a liberdade e o cógito que virão a seguir, devo esclarecer algumas coisas.
O Ceticismo Filosófico é uma ''doutrina'' na qual se afirma que é impossível chegar a uma verdade universal. O Dogmatismo Filosófico, no entanto, afirma que se pode constatar uma verdade universal. Segundo Descartes, quando o cético afirma não haver um meio de se chegar a uma verdade absoluta, ele já está criando uma verdade universal, portanto, se contradizendo. Partindo desse ponto, René combate os céticos, sendo um dogmatista. Para o filósofo, deve-se partir da dúvida metódica antes de se considerar uma premissa verdadeira. Há quatro passos fundamentais nesse processo de obtenção de conhecimento, que são: 1 - Deve-se obter uma dúvida; 2 - Deve-se fragmentá-la; 3 - Parte-se da parte mais simples para a mais complexa no processo de estudo, verificação; 4 - Existe a necessidade de uma revisão geral. Segundo René Descartes, no texto O Sentido é a Intenção de Significar, da obra Dicours de la méthode, o espírito é a razão. Portanto, os animais não possuem o espírito, pois agem meramente pelos instintos e não pela racionalidade propriamente dita. O animais não pensam, não elaboram conhecimento, não decodificam, eles simplismente existem sem saber da própria existência. O filósofo e matemático estabelece duas notáveis diferenças entre o homem e o animal, que são: 1 - Os animais não falam e não fazem uso de nenhum signo para se comunicarem. Só há linguagem humana, visto que a linguagem é a capacidade de criar um e decodificar conhecimento em suas mais diversas combinações. Os animais, invés disso, só possuem de sua estrutura mecânica a capacidade de movimentos, que é finita. Estão no contexto de estímulos e respostas, nada mais que isso.; 2 - Os animais não criam, elaboram ou se superam. Eles não sobressaem o funcionamento mecânico do próprio corpo. A perfeição do funcionamento mecânico não pode seduzir-nos, eles são meramente isso; A máquina não prova que tem espírito, mas que é apenas uma máquina. A diferença entre o homem e o bicho está na oposição entre a rigidez do funcionamento e a infinita flexibilidade da invenção. Por exemplo, uma águia possui a capacidade óptica muito mais elaborada que a de um ser humano, porém isso não é sinônimo de que esse animal é portador de um espírito, da razão e do conhecimento. Animais como a onça, guepardo, jaguar, podem atingir uma velocidade muito maior que a do humano em uma corrida e até mesmo que de vários meios de locomoção por nós elaborados, mas isso não infere na razão do animal. Já imaginou se além de na maioria das vezes possuirem um funcionamento mecânico mais bem elaborado do que o nosso, os animais também tivessem a capacidade intelectiva, o espírito racional? Seríamos, com certeza, uma espécie dominada, como na ficção do filme Planeta dos Macacos.

(hahahaha)
Bom, agora que já expliquei o básico que é necessário saber sobre o pensamento de René Descartes e até mesmo as ideias contidas no texto Discurso do Método, vou me focar na explicação de A Liberdade, e, no próximo post, falarei sobre o cógito, que é bem mais complexo, por isso optei por explicá-lo depois.
No texto contido na obra Meditações Metafísicas, volume quatro, René fala sobre a liberdade humana. Para ele, a liberdade é ilimitada, pois se fosse limitada, já não seria liberdade absoluta. Nós acreditamos sempre que a infinidade de vontade situa o ápice da liberdade no poder de decidir não importa o quê, fato errôneo segundo o autor. Se essa premissa fosse verdadeira, poderíamos dizer com veemência que a maior liberdade é a do louca, que decide que ele é outro diverso do que é, ou que decide que dois mais três não são cinco. Descartes tem uma visão inatista do homem, aquela segundo a qual o homem já é o possuidor do conhecimento, porém, necessita desenvolvê-lo. (Por favor, não confunda essa teoria com a de Platão ou de qualquer outro filósofo; são completamente distintas.) Logo, o homem é composto pela razão (o espírito) e a vontade, e age com mais liberdade quem melhor compreende as alternativas que precedem à escolha, não se fundamentando somente na vontade, mas sim na razão. Dessa premissa decorre o silogismo lógico de que quanto mais evidente a veracidade de uma alternativa, maiores chances dela ser escolhida pelo agente. Nesse sentido, a inexistência de acesso à informação afigura-se enquanto óbice a identificação da alternativa com maior grau de veracidade. A liberdade, as escolhas, por mera vontade, é o mais baixo grau de conhecimento, colocando o indivíduo em patamar animalesco. Para o filósofo, não se pode escolher todas as coisas e a única entidade verdadeiramente livre é Deus.
Amanhã postarei o breve texto sobre O Cógito e o significado de da afirmação ''Penso, logo existo''. Para concluir o texto, deixo abaixo algumas questões que encontrei em um blog na internet.
1. Explique as etapas da dúvida hiperbólica e a sua finalidade.
A dúvida hiperbólica é o método utilizado por Descartes como ponto de partida para alcançar o conjunto de princípios fundamentais que constituirão a base de todo o conhecimento verdadeiro. Essa dúvida não é ceticista, pelo contrário, é um método racional de investigação. O objetivo é colocar o conhecimento sobre um fundamento seguro.
A dúvida hiperbólica pode ser dividida em três etapas:
· Argumento dos erros dos sentidos: os sentidos são postos em dúvida, uma vez que eles freqüentemente nos enganam.
· Argumento do sonho: podemos ser enganados através de nossos sonhos, pois enquanto estamos sonhando acreditamos estar a viver uma situação real. Não encontrando nenhum indício pelo qual possamos distinguir com segurança a vigília do sono.
· Argumento do Deus Enganador e do Gênio Maligno: Descartes acreditava existir um Deus que tudo pode e por quem foi tudo foi criado; esse Deus poderia nos enganar, fazendo-nos acreditar que tudo existe quando a realidade é diferente. Para quem prefere negar a existência de Deus, ele supõe a existência de um Gênio Maligno, e que todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender nossa credulidade.
2. Pode-se dizer que Descartes é um cético? Explique.
Por ter cultivado a dúvida como meio de se desembaraçar das certezas adquiridas sem o exercício metódico da razão, Descartes é, quanto a esse aspecto, comparado aos céticos, mas Descartes se distingue dos céticos na medida em que não julga que a certeza seja impossível de atingir.
Descartes não cultiva a dúvida apenas como forma de percorrer as certezas infundadas e constatar a relatividade daquilo que os homens têm admitido como verdade. A dúvida é um percurso com direção e objetivo, que consiste precisamente no ponto de chegada como ponto fixo, pois se o ponto de chegada da dúvida for um ponto fixo, ele será o ponto de partida do conhecimento.
3. Qual é a primeira certeza alcançada por Descartes? Explique.
Ele chegou à conclusão de que duvidava de tudo e que isso é a única coisa de que se pode ter uma certeza absoluta. Com isso, um fato se torna claro, do qual ele pode ter toda a certeza: duvida.
Mas se duvida, tem que concluir que pensa, e se pensa tem de concluir que é um ser pensante. Ou, como ele próprio diz: “cogito, ergo sum” (penso, logo existo).
4. O que significa dizer que Descartes é um mecanicista? Explique.
Descartes é “dualista”, e isso significa que ele traça uma clara linha de separação entre a realidade espiritual e a realidade em extensão.
Em relação à realidade em extensão, ele tem dela uma concepção mecanicista. Ele chegou à conclusão de que o homem é um ser duplo que pensa e ocupa espaço. O homem tem uma alma e um corpo extenso. Para ele, enquanto a alma está no corpo, ela fica ligada com este através de um órgão do cérebro, uma glândula, na qual se dá uma reação constante entre o espírito e a matéria.
Descartes comparava o corpo com uma máquina ou um autômato, o motivo da comparação é o fato de que as pessoas daquele tempo estavam completamente fascinadas com as máquinas e os mecanismos dos relógios. A palavra “autômato” designa precisamente algo que se move por si mesmo.
5. De mo breve, indique as principais características dos seguintes eventos que antecederam a física cartesiana: A Revolução Copernicana e a Física Galilaica.
Em 1510, Nicolau Copérnico rompe com mais de dez séculos de domínio do geocentrismo. No livro Commentariolus diz pela primeira vez que a terra não é o centro do universo e sim um entre outros tantos planetas em torno do sol.
A revolução copernicana se consolida apenas um século depois, com as descobertas telescópicas e a mecânica de Galileu Galilei.
O principal efeito dessa teoria criada por Copérnico e fundamentada por Galileu para Descartes foi o estabelecimento da dúvida como o ponto de vista científico moderno.
6. Explique detalhadamente a finalidade do método cartesiano e as suas quatro regras.
Descartes acreditava que as gerações diferentes ao longo de séculos tinham seguido o mesmo método, e isso fez com que a ciência não tenha sido mais que o mero acúmulo de opiniões. E não uma construção a partir de fundamentos metodicamente estabelecidos e seguidos de deduções também metodicamente conduzidas.
Assim, descartes formula um novo método dividido em quatro partes:
· Clareza e distinção: essa regra supõe duas atitudes daquele que busca a verdade. De um lado, deve evitar a prevenção, isto é, não formular juízos a partir de preconceitos e prejulgamentos ou de opiniões simplesmente recebidas; de outro lado, evitar igualmente a precipitação, ou seja, não efetuar um juízo até que a ligação entre os termos representados apareça com inteira clareza e total distinção.
· Análise: pressupõe a anterioridade dos elementos simples sobre as composições. Trata-se de uma idéia tradicional da filosofia, mas Descartes confere a ela um teor matemático, já que a divisão das dificuldades é pensada por ele segundo o modelo da decomposição de equações complexas ou da redução de múltiplos aos seus multiplicadores.
· Ordem: essa regra permitirá a dedução como forma de ampliar o saber. A importância da ordem está em que cada elemento que entra no sistema deve ser valor à posição que ocupa num determinado conjunto. Por isso o encadeamento é essencial para a demonstração da verdade.
· Enumeração: o preceito da enumeração pode ser visto, em parte, como síntese, já que percorre em sentido inverso o caminho feito pela análise, numa recuperação da visão da totalidade do conjunto. Ou seja, proceder a revisões e enumerações completas, para ter a certeza de que todos os elementos foram considerados.
7. Por que para Descartes é mais fácil provar a existência da alma que do corpo? Explique.
De acordo com a dúvida hiperbólica, chegamos à conclusão de que todo o conhecimento adquirido através dos sentidos é falso, assim o corpo também é uma dúvida e sua existência não pode ser considerada como verdadeira.
Através da primeira verdade adquirida por Descartes – eu penso, logo existo – ele supõe que não existe corpo algum e que não havia qualquer mundo, mas que nem por isso podia supor que ele, ser pensante, não existia; compreendeu com isso que ele era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. Assim, esse eu pensante é tido como a “alma”. Esse fato infere a Descartes a comprovação da existência da alma mesmo na ausência do corpo físico.
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