domingo, 6 de maio de 2012

A história por trás da canção Conversa de Botas Batidas, Los Hermanos



   Após anos ouvindo Los Hermanos, descobri o significado da música Conversa de Botas Batidas, sem dúvida uma das mais lindas (senão a mais) canções tocadas pelos barbudos, composta por Marcelo Camelo. Antes de ler o texto que virá a seguir, proponho que dê play no video e ouça enquanto fica a par dessa bela história: 



   
  Conversa de Botas atidas foi escrita a partir de um fato verídico que ocorreu no Estado do Rio de Janeiro, em 2002, no local do antigo hotel Linda do Rosário, que desabou. Em meio ao trabalho do corpo de bombeiros em busca de soterrados ou falecidos, foi encontrado um casal de idosos abraçados na cama de uma das suites da hospedagem. Os corpos pertenciam a um par de enamorados que tiveram um relacionamento pouco durador na adolescência e voltaram a se encontrar na terceira idade. No entanto, como ambos já possuíam filhos e cônjuges, eles tiveram de se encontrar às escondidas e, por isso, frequentavam o hotel Linda do Rosário.
   Em um dia comum o estabelecimento começou a ruir, os funcionários rapidamente começaram a bater em porta em porta a fim de alertarem os hospedes e evacuarem o local (deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga). Não se sabe o motivo pelo qual os amantes não deixaram o hotel, havia tempo de sobra. Alguns dizem que eles temiam ser descobertos pela familia, já outros que eles não aguentavam mais fugir e optaram por morrer juntos, como a composição indica. 






    CONVERSA DE BOTAS BATIDAS
- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- a gente só queria o amor…
- Deus parece às vezes se esquecer
- ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar…
- Veja você, quando é que tudo foi desabar a gente corre pra se esconder…
- E se amar, se amar até o fim, sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar
Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar e agora esta de bem
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas não ter o seu lugar
Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além. Vão dizer que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela vai cair




  Desabamento deixa três feridos; duas pessoas estão sob escombros
Pelo menos três pessoas ficaram feridas no desabamento do prédio de quatro andares no centro do Rio, às 15h15 de hoje. No local funcionavam uma lanchonete, parcialmente em obras, uma loja de carimbos e cópias de chaves, e o Hotel Linda do Rosário. Houve uma seqüência de estalos em um dos pilares do edifício, minutos antes do acidente. Isso deu tempo para que muitas pessoas deixassem o local. Sete edifícios ao redor foram interditados. Até o início da noite, a Secretaria Estadual de Defesa Civil dispunha da informação de que duas pessoas estariam sob os escombros.
O prédio que ruiu faz parte de um corredor cultural, localizado a poucos metros do Centro Cultural Banco do Brasil e da Casa França-Brasil. Em nota oficial, a Secretaria de Urbanismo do município esclareceu que “o desabamento ocorreu quando operários retiravam o mezanino do térreo, abalando a estrutura do prédio”. O documento afirma ainda que as obras não contavam com a supervisão de nenhum engenheiro ou técnico responsável.
Houve pânico assim que os estalos foram ouvidos, cerca de 20, 10 e 5 minutos antes do desabamento. O porteiro do Linda Rosário, Raimundo Barbosa de Melo, de 37 anos, estava com a mulher na recepção do hotel e, ao som do primeiro estampido, avisou aos demais funcionários do hotel que saíssem do prédio imediatamente. No momento em que descia a escada, lembrou das duas pessoas que ocupavam um quarto. “Interfonei e cheguei a bater na porta do quarto, mas não responderam”, contou.
(…)
Fonte: www.estadao.com.br/arquivo/cidades/2002/not20020925p20002.htm
Vítimas de desabamento são reconhecidas no Rio
As vítimas do desabamento do prédio 55 da Rua do Rosário no Rio de Janeiro foram reconhecidas hoje. Dois corpos foram localizados ontem à noite pelos bombeiros em meio aos escombros da construção que ruiu na última quarta-feira.
Maria das Graças Mendes Rocha, de 62 anos, funcionária da Caixa Econômica Federal, e Ruy Diniz, de 71 anos, professor, estavam hospedados no hotel no momento da tragédia. As buscas foram retomadas após terem sido feitas escoras no prédio vizinho, que também ameaçava desabar. O corpo de Maria das Graças foi resgatado hoje cedo após buscas que empregaram tecnologias de rastreamento e um cão labrador. O outro corpo, do professor Diniz, foi localizado logo depois. Ronaldo Diniz, filho da vítima, não queria a divulgação do nome de seu pai em virtude das circunstâncias que envolveram sua morte, que poderiam denegrir sua imagem.
Fonte:http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,5580,OI55020-EI306,00.html


Um pouco sobre a vida de Jeff Buckley


    
       

     Nascido em 17 de novembro de 1966 (Orange County, CA, EUA), Jeffrey Scott Buckley começou a gostar de música desde pequeno. Além de ter sido influenciado pela eclética coleção de discos de sua mãe, Mary Guibert, Jeff herdou os genes musicais de um homem que mal conheceu, o semifamoso cantor dos anos 60, Tim Buckley.
Jeff passou a adolescência ouvindo diversos tipos de música como blues e jazz, mas principalmente rock (suas bandas favoritas, Led Zeppelin, Kiss) e rock progressivo (Genesis, Yes, Rush). Depois de terminar o colegial, ele decide que música seria o caminho a seguir. Com medo de ser comparado a seu pai, em vez de cantar, Jeff decide inicialmente só tocar guitarra, indo estudar no famoso G.I.T (Guitar Institute of Technology). Diversas experiências vieram em seguida: Jeff trabalhou em estúdio, tocou em bandas de funk, jazz e punk e até trabalhou na Banana Republic, de onde foi demitido após ser acusado de roubar uma camiseta.
Em 1991, ao ser convidado a participar de um show tributo a seu finado pai, duas coisas importantes aconteceram: Jeff resolve cantar (coisa que deixou o público boquiaberto) e Jeff conhece o ex-guitarrista da banda Captain Beefheart, Gary Lucas, que impressionado com sua voz, decide convidá-lo para integrar a banda Gods and Monsters. Afiada tanto nas performances ao vivo como nas composições próprias, o Gods and Monsters estava prestes a assinar com uma gravadora, quando Buckley decide abandonar o projeto por achar que um contrato, naquele momento, restringiria suas ambições musicais (Jeff queria, na verdade, ser artista solo).
No ano seguinte, ele começa a se apresentar sozinho (voz e guitarra) num bar nova-iorquino chamado “Sin-é”. Suas performances eram tão impressionantes que não demorou muito para que seus talentos fossem descobertos. Em outubro de 92, ele assina com a Columbia Records para a gravação de seu primeiro álbum solo.
“Grace” chega às lojas em agosto de 1994 e é imediatamente aclamado pela crítica e por artistas como Paul McCartney, Chris Cornell, Bono (“Jeff Buckley é uma gota cristalina num oceano de ruídos”) e Jimmy Page (“Quando o Plant e eu vimos ele tocando na Austrália, ficamos assustados. Foi realmente tocante”). Apesar disso e dos esforços promocionais (longa turnê de dois anos, dois videoclips), “Grace” vendeu muito menos do que o esperado. A música de Buckley era considerada leve demais para as rádios alternativas e pouco comercial para as rádios FM.
Em 1996, ele começa a trabalhar em seu segundo álbum e, contrariando sua gravadora que queria um disco mais comercial, chama Tom Verlaine, do grupo Television, para a produção. Quando as gravações estavam por se encerrar, Jeff, insatisfeito com o resultado, decide que o material não deveria ser lançado e, assim, ele começa a compor novas canções. E é isso que ele faz até maio de 97, quando finalmente chama os integrantes de sua banda para começar as gravações em Memphis, cidade onde morava na época.
No dia 29 de maio de 1997, helicópteros sobrevoavam o Wolf River em busca de uma pessoa que ali havia desaparecido. Segundo relato do amigo Keith Foti, Jeff Buckley resolveu parar para nadar naquele rio antes de se encontrar com sua banda. Depois de alguns minutos, Foti foi até o carro para guardar alguns objetos, enquanto ouvia Jeff nadando e cantarolando “Whole Lotta Love”. Quando voltou, não viu mais nada. Ele gritou por “Jeff” por quase dez minutos e, não obtendo resposta, decidiu chamar a polícia. O corpo de Jeff Buckley foi encontrado só uma semana depois, dia 4 de junho, perto da nascente do rio Mississippi.
O álbum póstumo “Sketches for My Sweetheart the Drunk” foi lançado em 1998. “Sketches” é composto das gravações que Jeff fez com Tom Verlaine mais as músicas nas quais Jeff trabalhava antes de morrer.
Em 2000, “Mystery White Boy” veio relembrar Jeff nas suas performances ao vivo.
Apesar da morte trágica, Jeff Buckley vem cada vez mais conquistando novos fãs. Artistas como Coldplay, Muse e Radiohead não cansam de mencionar Jeff como suas principais influências. Além disso, “Grace” vem constantemente sendo citado como um dos melhores álbuns de todos os tempos. Quem conhece a obra de Jeff Buckley sabe que isso não é exagero.   
   
                                          Recomendo este documentário: 
       
             


Fonte: Jeff Buckley - Matérias e Biografias Whiplash.net

terça-feira, 1 de maio de 2012

Crítica de Dois Coelhos, Afonso Poyart (2012)

       Decidi assistir, com um certo atraso, o filme Dois Coelhos, produção nacional que entrou em cartaz no início deste ano. Pensei em várias maneiras de construir uma crítica capaz de abordar tudo que pensei sobre o longa quando terminei de vê-lo, mas não pude pois aquilo que queria dizer já estava presente em uma resenha que li no blóguê Pipoca dos Outros (Principalmente a comparação com o premiado filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que obteve projeção internacional.) Portanto, mediante tal fato, decidi compartilhar parte do texto com vocês e, ao final, irei acrescentar algumas coisas. Para conferi-lo na íntegra, acesse pipocadosoutros.blogspot.com, o texto a seguir é apenas um trecho de toda a resenha.
     


Direção: Afonso Poyart
Roteiro: Afonso Poyart
Com: Fernando Alves Pinto, Alessandra Negrini, Caco Ciocler, Marat Descartes, Neco Vila Lobos, Roberto Marchese, Norival Rizzo, Thogun, Thaíde, Yoran Blaschkauer, Robson Nunes e Aldine Muller.
Estreia no Brasil: 20/01/2012

por João Marcos Flores
''Em diversas entrevistas concedidas nas últimas semanas, o publicitário Afonso Poyart apontou os cineastas Quentin Tarantino, Guy Ritchie, Christopher Nolan e David Fincher como principais inflluências na direção de seu primeiro longa-metragem. O que me fez concluir, logo nos primeiros minutos de projeção, que o sujeito jamais assistiu a um filme sequer comandado por seus “mentores”, citando seus nomes apenas para tentar justificar este seu bagunçado 2 Coelhos. Elevando o termo over à milésima potência, o longa não apenas soa exagerado se comparado a Tarantino, Ritchie, Nolan e Fincher (cuja maior extravagância estética da carreira continua sendo a descrição das aquisições consumistas de Edward Norton em Clube da Luta), como é capaz de fazer até mesmo o rei do déficit de atenção Danny Boyle soar como uma mistura de Eric Rohmer e Andrey Tarkovskiy.

     
    Para conferir a crítica na íntegra, acesse: pipocadosoutros.blogspot.com

sexta-feira, 27 de abril de 2012

René Descartes, segunda parte

     O texto O Cógito é considerado um dos ápices da filosofia. Afinal, quem aí nunca ouviu a expressão/frase ''Penso, logo existo''? Quase impossível encontrar alguém que a desconheça, não é mesmo? A descoberta do espírito como sujeito diferente de todos os objetos, retira o espírito das coisas. Lembre-se que, para Descartes, o espírito é a razão, e o homem é seu único portador. Portanto, sua descoberta põe fim às buscas indefinidas e incertas sobre a natureza humana. cogito, portanto, é a certeza que o sujeito pensante tem da sua existência enquanto tal.


      Tal texto, baseado nas meditações de René, é dividido em duas partes. A primeira estabelece que somos, fundamentado através da dúvida metódica, porque duvido de tudo, de mim, do mundo, dos outros, dos sentidos que experimento, objetos etc. Duvida-se a fim de constatar a verdade. Dúvidar é nada mais do que pensar. E, por sua vez, pensar é fruto de nossa racionalidade proveniente do espírito. Portanto, eu sou pois duvido, penso, me diferenciando das demais coisas. Não sou um objeto qualquer, um animal instintivo e irracional. A segunda parte estabelece o que sou; é necessário dizer o que sei sobre mim a partir da certeza nascida a dúvida universal. Para isso, é preciso rejeitar tudo que sei de mim antes da dúvida. Depois da dúvida, sabe-se que sou algo que pensa. O que é conhecido primeiramente é o espírito. E o espírito revela-se a si mesmo. René Descartes deixa claro nesse texto que a sensação não é necessária para o conhecimento, refutando Aristóteles. 
      Ao iniciar a segunda meditação, Descartes afirma que mesmo que o Gênio Maligno o engane em toda sua tentativa de obter conhecimento, há sempre a certeza do pensamento. Só há o engano quando há o pensamento. Desse modo, o Argumento do Cogito mostra que é necessário intuir o Pensamento e a Existência de um modo unificado. Após essa intuição, podemos extrair algumas certezas como:
1)Eu sou
2)Eu sou um res cogitans (substância que pensa)
3) O espírito é mais fácil de conhecer do que o corpo

     A famosa frase cogito, ergo sum, que demonstra a principal verdade que Descartes encontra na sua dúvida metódica, e que, ao mesmo tempo, é a pedra angular de todo o seu pensamento filosófico foi, por "contrabando" linguístico, por mera nuance de gramática, transformado, havendo uma deturpação do sentido - de ego cogito (eu penso) passa-se para o cogito no geral (o pensamento). Portanto, ao invés de haver um sujeito de enunciação que pensa e que, por conseguinte, é, passa a haver um pensamento que é, ou, melhor dizendo, é o pensamento que é. Perde-se portanto a necessidade de um sujeito que pensa e passa-se ao pensamento em abstracto como realidade do ser: nós somos pensamento. 

Como uma das bases do projecto Iluminista anterior a este nosso novo Iluminismo, Descartes deixou assim uma das principais influências: o pensamento e a Razão são todas-poderosas, somos apenas pensamento. Ora, isto levou a uma coisa muito simples: a total e completa negação do Homem como uma entidade física, como uma entidade racional e irracional, que tem, para além da Razão, sensações, sentimentos, frustrações e desejos. 

É certo que o projecto dos Neo-Illuminati se apoia também no uso da nossa inteligência humana para atingir um novo nível de ordem e de sociedade, um novo nível intelectual e de conhecimento. Mas é também certo que não cairemos (não o poderíamos fazer se realmente amamos assim tanto a Verdade) no erro de supôr que o Homem é unicamente ou maioritariamente racional. Se bem que, como eu encaro as nossas vivências, o controlo do racional sobre o irracional pode ser aumentado, também é verdade que este controlo castrador não deve ter lugar. Muito pelo contrário, a inteligência que temos deve servir-nos para compreender os nossos desejos, as nossas pulsões, para usá-las de forma não lesiva. Não queremos dizer que o Homem pensa acima de tudo, mas que o Homem pensa e sente, e que pode utilizar estas duas coisas para que não se entregue a um deplorável ascetismo de século 18, nem ao deboche que conduz ao oblívio de tudo o resto. Temos que saber assumir os nossos desejos e apetites, temos que procurar satisfazê-los, desde que daí não resulte mal a outro, mas temos que contrabalançar isso com um uso cabal da Razão; temos que saber dirigir a nossa vida entre os períodos de emoção e paixão e temos que saber dedicar-nos à paixão e às emoções entre os momentos de condução racional da nossa vida. 



quarta-feira, 25 de abril de 2012

René Descartes, o pai do racionalismo (Primeira parte)

     Escreverei duas breves postagens com as idéias centrais dos textos A Liberdade e O Cógito, ambos nas obras Méditations métaphysiques (Meditações Metafísicas), respectivamente nos volumes IV e II. Vou começar pelo texto A Liberdade, explicando, anteriormente, um pouco da vida de Descartes e o foco central de toda sua análise filosófica. Pois bem, vamos lá! 


     
    
   René Descartes (nascido em La Haye en Touraine, a 31 de março de 1596  Estocolmo, falecido a 11 de fevereiro de 1650) foi um filósofo, físico e matemático francês que destacou-se, sobretudo, por seu trabalho revolucionário na filosofia e na ciência, mas também obteve reconhecimento matemático por sugerir a fusão da álgebra com a geometria - fato que gerou a geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Por fim, ele foi uma das figuras-chave na Revolução CientíficaMuitos especialistas afirmam que a partir de Descartes inaugurou-se o racionalismo da Idade Moderna. Décadas mais tarde, surgiria nas Ilhas Britânicas um movimento filosófico que, de certa forma, seria o seu oposto - o empirismo, com John Locke e David HumeO pensamento de Descartes é revolucionário para uma sociedade feudalista em que ele nasceu, onde a influência da Igreja ainda era muito forte e quando ainda não existia uma tradição de "produção de conhecimento". Aristóteles tinha deixado um legado intelectual que o clero se encarregava de disseminar. Foi um dos precursores do movimento, considerado o pai do racionalismo, e defendeu a tese de que a dúvida era o primeiro passo para se chegar ao conhecimento. Descartes viveu numa época marcada pelas guerras religiosas entre Protestantes e Católicos na Europa - a Guerra dos Trinta Anos. Viajou muito e viu que sociedades diferentes têm crenças diferentes, mesmo contraditórias. Aquilo que numa região é tido por verdadeiro, é considerado ridículo, disparatado e falso em outros lugares. Descartes viu que os "costumes", a história de um povo, sua tradição "cultural" influenciam a forma como as pessoas pensam naquilo em que acreditam.
    A partir de essa breve biografia retirada da Wikipédia, sabe-se o básico sobre René. No entanto, para a compreensão do breve resumo dos textos sobre a liberdade e o cógito que virão a seguir, devo esclarecer algumas coisas. 
    O Ceticismo Filosófico é uma ''doutrina'' na qual se afirma que é impossível chegar a uma verdade universal. O Dogmatismo Filosófico, no entanto, afirma que se pode constatar uma verdade universal. Segundo Descartes, quando o cético afirma não haver um meio de se chegar a uma verdade absoluta, ele já está criando uma verdade universal, portanto, se contradizendo. Partindo desse ponto, René combate os céticos, sendo um dogmatista. Para o filósofo, deve-se partir da dúvida metódica antes de se considerar uma premissa verdadeira. Há quatro passos fundamentais nesse processo de obtenção de conhecimento, que são: 1 - Deve-se obter uma dúvida; 2 - Deve-se fragmentá-la; 3 - Parte-se da parte mais simples para a mais complexa no processo de estudo, verificação; 4 - Existe a necessidade de uma revisão geral. Segundo René Descartes, no texto O Sentido é a Intenção de Significar, da obra Dicours de la méthode, o espírito é a razão. Portanto, os animais não possuem o espírito, pois agem meramente pelos instintos e não pela racionalidade propriamente dita. O animais não pensam, não elaboram conhecimento, não decodificam, eles simplismente existem sem saber da própria existência. O filósofo e matemático estabelece duas notáveis diferenças entre o homem e o animal, que são: 1 - Os animais não falam e não fazem uso de nenhum signo para se comunicarem. Só há linguagem humana, visto que a linguagem é a capacidade de criar um e decodificar conhecimento em suas mais diversas combinações. Os animais, invés disso, só possuem de sua estrutura mecânica a capacidade de movimentos, que é finita. Estão no contexto de estímulos e respostas, nada mais que isso.; 2 - Os animais não criam, elaboram ou se superam. Eles não sobressaem o funcionamento mecânico do próprio corpo. A perfeição do funcionamento mecânico não pode seduzir-nos, eles são meramente isso; A máquina não prova que tem espírito, mas que é apenas uma máquina. A diferença entre o homem e o bicho está na oposição entre a rigidez do funcionamento e a infinita flexibilidade da invenção. Por exemplo, uma águia possui a capacidade óptica muito mais elaborada que a de um ser humano, porém isso não é sinônimo de que esse animal é portador de um espírito, da razão e do conhecimento. Animais como a onça, guepardo, jaguar, podem atingir uma velocidade muito maior que a do humano em uma corrida e até mesmo que de vários meios de locomoção por nós elaborados, mas isso não infere na razão do animal. Já imaginou se além de na maioria das vezes possuirem um funcionamento mecânico mais bem elaborado do que o nosso, os animais também tivessem a capacidade intelectiva, o espírito racional? Seríamos, com certeza, uma espécie dominada, como na ficção do filme Planeta dos Macacos. 
     
                          (hahahaha)


   Bom, agora que já expliquei o básico que é necessário saber sobre o pensamento de René Descartes e até mesmo as ideias contidas no texto Discurso do Método, vou me focar na explicação de A Liberdade, e, no próximo post, falarei sobre o cógito, que é bem mais complexo, por isso optei por explicá-lo depois. 
   No texto contido na obra Meditações Metafísicas, volume quatro, René fala sobre a liberdade humana. Para ele, a liberdade é ilimitada, pois se fosse limitada, já não seria liberdade absoluta. Nós acreditamos sempre que a infinidade de vontade situa o ápice da liberdade no poder de decidir não importa o quê, fato errôneo segundo o autor. Se essa premissa fosse verdadeira, poderíamos dizer com veemência que a maior liberdade é a do louca, que decide que ele é outro diverso do que é, ou que decide que dois mais três não são cinco. Descartes tem uma visão inatista do homem, aquela segundo a qual o homem já é o possuidor do conhecimento, porém, necessita desenvolvê-lo. (Por favor, não confunda essa teoria com a de Platão ou de qualquer outro filósofo; são completamente distintas.) Logo, o homem é composto pela razão (o espírito) e a vontade, e age com mais liberdade quem melhor compreende as alternativas que precedem à escolha, não se fundamentando somente na vontade, mas sim na razão. Dessa premissa decorre o silogismo lógico de que quanto mais evidente a veracidade de uma alternativa, maiores chances dela ser escolhida pelo agente. Nesse sentido, a inexistência de acesso à informação afigura-se enquanto óbice a identificação da alternativa com maior grau de veracidade. A liberdade, as escolhas, por mera vontade, é o mais baixo grau de conhecimento, colocando o indivíduo em patamar animalesco. Para o filósofo, não se pode escolher todas as coisas e a única entidade verdadeiramente livre é Deus. 


   Amanhã postarei o breve texto sobre O Cógito e o significado de da afirmação ''Penso, logo existo''. Para concluir o texto, deixo abaixo algumas questões que encontrei em um blog na internet. 




  1.      Explique as etapas da dúvida hiperbólica e a sua finalidade.
A dúvida hiperbólica é o método utilizado por Descartes como ponto de partida para alcançar o conjunto de princípios fundamentais que constituirão a base de todo o conhecimento verdadeiro. Essa dúvida não é ceticista, pelo contrário, é um método racional de investigação. O objetivo é colocar o conhecimento sobre um fundamento seguro.
A dúvida hiperbólica pode ser dividida em três etapas:

·         Argumento dos erros dos sentidos: os sentidos são postos em dúvida, uma vez que eles freqüentemente nos enganam.
·         Argumento do sonho: podemos ser enganados através de nossos sonhos, pois enquanto estamos sonhando acreditamos estar a viver uma situação real. Não encontrando nenhum indício pelo qual possamos distinguir com segurança a vigília do sono.
·         Argumento do Deus Enganador e do Gênio Maligno: Descartes acreditava existir um Deus que tudo pode e por quem foi tudo foi criado; esse Deus poderia nos enganar, fazendo-nos acreditar que tudo existe quando a realidade é diferente. Para quem prefere negar a existência de Deus, ele supõe a existência de um Gênio Maligno, e que todas as coisas exteriores que vemos são apenas ilusões e enganos de que ele se serve para surpreender nossa credulidade.

2.      Pode-se dizer que Descartes é um cético? Explique.
Por ter cultivado a dúvida como meio de se desembaraçar das certezas adquiridas sem o exercício metódico da razão, Descartes é, quanto a esse aspecto, comparado aos céticos, mas Descartes se distingue dos céticos na medida em que não julga que a certeza seja impossível de atingir.
Descartes não cultiva a dúvida apenas como forma de percorrer as certezas infundadas e constatar a relatividade daquilo que os homens têm admitido como verdade. A dúvida é um percurso com direção e objetivo, que consiste precisamente no ponto de chegada como ponto fixo, pois se o ponto de chegada da dúvida for um ponto fixo, ele será o ponto de partida do conhecimento.

3.      Qual é a primeira certeza alcançada por Descartes? Explique.
Ele chegou à conclusão de que duvidava de tudo e que isso é a única coisa de que se pode ter uma certeza absoluta. Com isso, um fato se torna claro, do qual ele pode ter toda a certeza: duvida.
Mas se duvida, tem que concluir que pensa, e se pensa tem de concluir que é um ser pensante. Ou, como ele próprio diz: “cogito, ergo sum” (penso, logo existo).

4.      O que significa dizer que Descartes é um mecanicista? Explique.
Descartes é “dualista”, e isso significa que ele traça uma clara linha de separação entre a realidade espiritual e a realidade em extensão.
Em relação à realidade em extensão, ele tem dela uma concepção mecanicista. Ele chegou à conclusão de que o homem é um ser duplo que pensa e ocupa espaço. O homem tem uma alma e um corpo extenso. Para ele, enquanto a alma está no corpo, ela fica ligada com este através de um órgão do cérebro, uma glândula, na qual se dá uma reação constante entre o espírito e a matéria.
Descartes comparava o corpo com uma máquina ou um autômato, o motivo da comparação é o fato de que as pessoas daquele tempo estavam completamente fascinadas com as máquinas e os mecanismos dos relógios. A palavra “autômato” designa precisamente algo que se move por si mesmo.

5.      De mo breve, indique as principais características dos seguintes eventos que antecederam a física cartesiana: A Revolução Copernicana e a Física Galilaica.
Em 1510, Nicolau Copérnico rompe com mais de dez séculos de domínio do geocentrismo. No livro Commentariolus diz pela primeira vez que a terra não é o centro do universo e sim um entre outros tantos planetas em torno do sol.
A revolução copernicana se consolida apenas um século depois, com as descobertas telescópicas e a mecânica de Galileu Galilei.
O principal efeito dessa teoria criada por Copérnico e fundamentada por Galileu para Descartes foi o estabelecimento da dúvida como o ponto de vista científico moderno.

6.      Explique detalhadamente a finalidade do método cartesiano e as suas quatro regras.
Descartes acreditava que as gerações diferentes ao longo de séculos tinham seguido o mesmo método, e isso fez com que a ciência não tenha sido mais que o mero acúmulo de opiniões. E não uma construção a partir de fundamentos metodicamente estabelecidos e seguidos de deduções também metodicamente conduzidas.
Assim, descartes formula um novo método dividido em quatro partes:

·         Clareza e distinção: essa regra supõe duas atitudes daquele que busca a verdade. De um lado, deve evitar a prevenção, isto é, não formular juízos a partir de preconceitos e prejulgamentos ou de opiniões simplesmente recebidas; de outro lado, evitar igualmente a precipitação, ou seja, não efetuar um juízo até que a ligação entre os termos representados apareça com inteira clareza e total distinção.
·         Análise: pressupõe a anterioridade dos elementos simples sobre as composições. Trata-se de uma idéia tradicional da filosofia, mas Descartes confere a ela um teor matemático, já que a divisão das dificuldades é pensada por ele segundo o modelo da decomposição de equações complexas ou da redução de múltiplos aos seus multiplicadores.
·         Ordem: essa regra permitirá a dedução como forma de ampliar o saber. A importância da ordem está em que cada elemento que entra no sistema deve ser valor à posição que ocupa num determinado conjunto. Por isso o encadeamento é essencial para a demonstração da verdade.
·         Enumeração: o preceito da enumeração pode ser visto, em parte, como síntese, já que percorre em sentido inverso o caminho feito pela análise, numa recuperação da visão da totalidade do conjunto. Ou seja, proceder a revisões e enumerações completas, para ter a certeza de que todos os elementos foram considerados.

7.      Por que para Descartes é mais fácil provar a existência da alma que do corpo? Explique.
De acordo com a dúvida hiperbólica, chegamos à conclusão de que todo o conhecimento adquirido através dos sentidos é falso, assim o corpo também é uma dúvida e sua existência não pode ser considerada como verdadeira.
Através da primeira verdade adquirida por Descartes – eu penso, logo existo – ele supõe que não existe corpo algum e que não havia qualquer mundo, mas que nem por isso podia supor que ele, ser pensante, não existia; compreendeu com isso que ele era uma substância cuja essência ou natureza consiste apenas no pensar, e que, para ser, não necessita de nenhum lugar, nem depende de qualquer coisa material. Assim, esse eu pensante é tido como a “alma”. Esse fato infere a Descartes a comprovação da existência da alma mesmo na ausência do corpo físico.

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domingo, 22 de abril de 2012

O underground de Chuck Palahniuk





    Qualquer menção inicial a Chuck Palahniuk primeiramente estará acompanhada de informações a respeito de "Clube da Luta". Fight Club, seu primeiro livro, foi adaptado para o cinema pelo diretor David Fincher, (estrelado os astros Brad Pitt e Edward Norton), se transformou em uma obra de culto de tamanhas proporções que várias das ideias do autor contidas no livro se desatrelaram de sua importância ou significados somente literários e passaram a ser percebidos como princípios de vida, ideais a serem seguidos. Há os que interpretam os ensinamentos de Tyler Durden, personagem interpretado por Brad Pitt na adaptação cinematográfica, de forma literal, buscando aplicações práticas no dia-a-dia.     
      Todas as obras de Chuck nos apresentam nada mais do que os dramas pessoais do autor. Tyler, por exemplo, é um anticapitalista, o que nos apresenta a aversão de Palahniuk por tal sistema político. Jornalista de profissão, Chuck Palahniuk já foi rapper, lutador amador e até mecânico de automóveis. Teve o pai assassinado com a namorada pelo ex-marido dela. Quando era adolescente, seu avô cometeu suicídio após matar a mulher. Vê-se, assim, que a vida do escritor foi tão insólita e cercada de tragédias quanto a das personagens ''fictícias'' que compõe; são indivíduos que, de uma ou outra forma, foram marginalizados pela sociedade, frequentemente reagindo com agressividade auto-destrutiva. A narrativa começa, não raramente, no seu fim cronológico, com o protagonista a recontar os eventos que conduziram ao ponto que forma o princípio do livro. Por bastantes vezes há um ponto de viragem da história, na forma de uma revelação inesperada perto do fim. O estilo do autor é caracterizado pelo uso e repetição de frases curtas plenas de humor cínico ou irónico. Chuck gosta de descrever o seu estilo como Ficção Transgressional.
     Antes de eu falar mais sobre outras obras e sobre a vida de Palahniuk, vou dar-lhes uma breve sinopse de Clube da Luta, até porque já iniciei minha postagem falando a respeito de tal obra. Pois bem, vamos lá! 
     O enredo nos apresenta a história de um narrador sem nome, isso mesmo, o personagem interpretado por Edward Norton não tem uma denominação específica. Muitos pensam que no filme ele é ''chamado'' de Jack, porém isso não nos remete a um nome, apenas uma referência ao modo de viver do narrador, e não ele próprio. Tal narrador trabalha em uma empresa de seguros, vive com insônia, ficando sem dormir por dias, entediado e frequentando grupos de ajuda, desde álcoolicos anônimos ao grupo de pessoas com câncer etc, fazendo-se passar por vítima de cancro, encontra uma libertação emocional que alivia a sua insónia. Ele torna-se viciado em ir a grupos de apoio e em fingir ser uma vítima, mas a presença de outro impostor Marla Singer ( interpretada por Helena Bonham Carter) perturba-o, e então ele negocia com ela para evitar o encontro com os mesmos grupos. Depois de voar para casa após uma viagem de negócios, o narrador encontra o seu apartamento destruído por uma explosão. Ele liga a Tyler Durden, um vendedor de sabão com quem conversou no voo, e eles encontram-se num bar. Uma conversa sobre consumismo acaba com Tyler a convidar o narrador para ficar em sua casa e, depois disso, ele pede ao narrador para lhe dar um soco. Os dois envolvem-se numa luta fora do bar, com o narrador, posteriormente, a mudar-se para a casa em ruínas de Durden. Eles têm outras lutas fora do bar, e estas atraem uma multidão de homens. Os combates mudam-se para a cave do bar, onde os homens formam um clube de combate. Mas a coisa começa a sair do controle, e o que era pra ser apenas uma sessão de "psicanálise dolorida" passa a se transformar numa organização terrorista, que insiste em acabar (no sentido mais geral dessa palavra) com tudo o que é relacionado ao capitalismo e ao consumismo – existe muito mais por trás desta superfície. Estão ali embutidos os ideais e discursos anticapitalistas e anticonsumistas que passarão a se propagar em diversas obras de Chuck Palahniuk. Estão ali as tentativas de insurgência contra um sistema que insiste em rotular, em demonstrar que a receita do sucesso é composta por dinheiro, demonstração de poder e ostentação. "Clube da Luta" é só o primeiro round para se compreender que a literatura, para Palahniuk é composta de princípios – muitas vezes acusados de subversivos – que se estenderão por outras obras suas, ainda que travestidas, por vezes, de tramas que não revelam isto tão claramente. Não vou dar spoilers sobre o final da trama a fim de não acabar com sua experiência. O desfecho é surpreendente e muito bem elaborado, espero que assista à película. O link no Imdb é: http://www.imdb.com/title/tt0137523/ 
   
  E lembre-se sempre das 8 regras do Fight Club 


  1. Você não fala sobre o Clube da Luta;
  2. Você não fala sobre o Clube da Luta;
  3. Quando alguém gritar "pára!", sinalizar ou desmaiar, a luta acaba;
  4. Somente duas pessoas por luta;
  5. Uma luta de cada vez;
  6. Sem camisa, sem sapatos;
  7. As lutas duram o tempo que for necessário;
  8. Se for a sua primeira noite no Fight Club, você tem que lutar!








  Depois de "Clube da Luta", que é de 1996, o autor lançou "Survivor", em 1999, que aqui no Brasil recebeu o nome de "Sobrevivente", lançado pela editora Nova Alexandria. "Sobrevivente" compartilha com "Clube da Luta" o asco pelo cotidiano capitalista e a estrutura narrativa, começando quase do fim e narrando em primeira pessoa a história em flashbacks. Ao contar a história de Tender Brenson, último fiel da seita Igreja do Credo, um fanático religioso que sequestra um avião em pleno voo para cometer suicídio, relatando os eventos da sua vida na caixa preta do avião, Palahniuk critica, através de uma narrativa ágil, o sistema educacional americano, que forma pessoas programadas apenas para serem "funcionários perfeitos". O personagem conta em prosa rápida e cortante sua vida, do momento em que saiu da comunidade para trabalhar em casas de família - nas horas vagas aliciando moças e dando conselhos errados a pessoas deprimidas pelo telefone. Até que se torna uma celebridade instantânea, começa a namorar e tudo dá errado. O livro não se deixa largar até o último capítulo e mistura suspense à comédia grotesca para satirizar de forma mordaz a vazia e consumista cultura americana. Quase um estudo antropológico em forma de romance satírico, traz uma visão ácida da vida em sociedade e de como o indivíduo pode ser moldado - seja pela igreja através da culpa e êxtase religioso; pela academia de ginástica através de exercícios; pelo Espetáculo da ânsia por riqueza e fama. Apesar de já ter tido seus direitos comprados pelos produtores de cinema, sua realização se torna complicada pela hesitação dos mesmos em produzir um filme cujo protagonista seqüestra um avião. 

      Em "Invisible Monsters", de 1999, sem tradução no Brasil, Palahniuk narra a história de Shannon McFarland, uma supermodelo que tinha tudo: uma brilhante carreira, um namorado e um melhor amigo muito leal. Quando sofre um acidente (na verdade, um evento ambíguo sobre o qual não se pode ter certeza absoluta de se tratar de acidente), tem o rosto desfigurado, acabando com sua carreira e perdendo também seu namorado. Sua vida está arruinada quando conhece Brandy Alexander, um transsexual que vê alguma esperança nela. Juntos, os dois começam um plano de vingança contra aqueles que são suspeitos de envolvimento no acidente de Shannon, enquanto viajam pelos Estados Unidos roubando drogas em casas de repouso. Shannon abriga um ressentimento profundo em relação ao seu irmão, que morreu supostmente de AIDS. Porém, enquanto a novela progride, se revela que tudo está conectado em maneiras inesperadas. Este, que era para ser o romance de estréia de Palahniuk, foi constantemente rejeitado pela editoras por ser considerado "doentio" em excesso, e só foi publicado depois do sucesso alcançado pelo autor depois que Palahniuk estreou na literatura com "Clube da Luta". 

2001 é o ano de "Choke", publicado pela Rocco no Brasil como "No Sufoco", onde um menino traumatizado por uma infância atribulada ao lado da mãe amalucada se transforma no adulto golpista Victor Mancini. Victor, um ex-estudante de Medicina que freqüenta grupos sexólatras anônimos sem a menor intenção de curar qualquer compulsão, mas sim de conseguir mais parceiras sexuais, aplica diariamente o mesmo golpe: finge engasgar-se ao comer e estar prestes a sufocar. Comove quem o socorre, contando que passa por dificuldades financeiras, o que, invariavelmente, leva seus salvadores a lhe enviarem dinheiro. 

     O dinheiro que obtém dos golpes nos bons samaritanos que o acodem serve para pagar o tratamento da mãe, internada em um sanatório com Mal de Alzheimer. Um anti-herói detestável, Victor demonstra, entretanto, um intenso sentimento de solidariedade aos companheiros de trabalho e não quer que a mãe morra, embora não sonhe com sua melhora. Mesmo assim, o autor adverte logo nas primeiras páginas que seu livro é a biografia de alguém que nutre um profundo desprezo pela Humanidade. 

     Transitando pelo mesmo universo sombrio dos personagens de Clube da luta, como os grupos de ajuda anônimos, Victor tem um emprego tão insólito quanto seus hábitos sociais, trabalhando num museu a céu aberto em que todos os empregados usam trajes de época e fingem estar congelados no ano de 1734. Entre as punições dadas a quem se comportar como se vivesse em outro século, como, por exemplo, esquecer-se de tirar o relógio do pulso, há castigos físicos e humilhantes. Victor suporta tudo com suas observações cínicas e sarcásticas, que só não são suficientes para protegê-lo da verdade sobre sua origem. 

    Quando em 2002, o autor lançou "Lullaby, a novel" (aqui no Brasil lançado pela editora Rocco com o nome "Cantiga de Ninar"), Palahniuk declarou em entrevistas que este é o seu livro mais impactante pelos signos contidos, pelas simbolizações de força, de magia que faz com que crianças morram. De fato, o livro marca um diferencial acentuado na obra de Palahniuk. Em "Cantiga de Ninar" Carl Streator é um repórter solitário e viúvo que recebe a tarefa de realizar uma série de artigos sobre o que chamam de "Síndrome da Morte Infantil Súbita". Durante a investigação ele descobre uma ligação sinistra: a presença, em todos os cenários das mortes destas crianças, de antologia "Pomas e rimas ao redor do mundo", aberto na página 27 onde está impressa uma cantiga africana. Não demora para o repórter descobrir que a canção é letal quando falada ou até mesmo pensada em direção a alguém. O que acontece é que a canção, depois que penetra no cérebro de Streator, acaba tranformando-o em um assassino compulsivo. Assim, ele se une a Helen Hoover Boyle, corretora de imóveis especializada em vender casas assombradas (e a recomprá-las, muito abaixo do preço depois que as manifestações assustadoras incomodam os proprietários), e junto com Mona Sabbat, uma estudante de bruxaria e assistente de Helen e o ecoterrorista radical conhecido como Ostra, namorado de Helen, responsável por chantagens e ações indenizatórias fraudulentas contra dezenas de empresas, partem em uma viagem pelos Estados Unidos a fim de destruir todos os exemplares do livros das bibliotecas, para que suas conseqüências não se espalhem e eliminem a raça humana. 


    O que não se demora para perceber com a leitura deste livro é que o thriller de horror – apesar de muito bem executado – é só um pretexto para mais uma vez expor as críticas do autor a uma sociedade de consumo desenfreado e excesso de informação: verdadeiros "musicômanos", que se entretém com modelos prontos e alienantes de diversão ("Em todo caso, hoje ninguém é mais dono da própria mente. Você não consegue se concentrar. Não consegue pensar. Sempre há algum barulho se infiltrando. Cantores gritando. Pessoas mortas rindo. Atores chorando. Todas essas pequenas doses de emoção."). 

     Em "Cantiga de Ninar" o autor diminui um tanto, por exemplo, sua descrição dos vícios sexuais, mas nem tanto assim (há um personagem, o escroto enfermeiro Nash, que não hesita em abusar sexualmente de cadáveres de modelos que ele é encarregado de recolher). De resto, a violência gratuita foi amenizada, os psicóticos são absolutamente todos e a anormalidade é embalada para consumo e prontamente aceita. 

    Ser capaz de radiografar com esta precisão revestida de ironia tão corrosiva a sociedade moderna atual é o que faz a obra de Chuck Palahniuk arregimentar uma profusão de fãs a cada livro lançado. Embora seja um autor sobre o qual freqüentemente possam desabar críticas do tipo de que a literatura que produz não é o reflexo do que vê, mas exatamente o produto, é o tipo de risco a que obras assim devem se mostrar dispostas a correr. Na realidade, a obra de Palahniuk abre muita vazão a análises deste tipo, uma vez que sempre poderá ser encarada como incentivo, como agregadora de grupos perturbados o bastante tal qual os que se motivam por "ideais" como os propagados em "Clube da Luta" e que não enxergam na obra de Palahniuk a ácida crítica, a condenação, a metáfora travestida de simples entretenimento – pensam que estão diante da adoração, da divulgação de práticas e princípios por vezes doentios. Assim, e por este motivo, fica tão fácil atrelar o nome de Palahniuk a uma literatura de estranhamento (como deveria ser toda arte?), a observar como se tornou um dos autores undergrounds mais populares da atualidade, com centenas de fãs espalhados pelo mundo. 

    Palahniuk denuncia com humor ácido e ironia inteligente a decadência de uma sociedade consumista e sem ideais. No entanto, é mais do que necessário saber até que nível esta "fobia consumista" do autor não encontra paradoxo no próprio resultado final de seu trabalho. Afinal, não obstante o fato de terem um extraordinário número de vendas (o que, em último grau não deixa de ser um consumismo pelo novo, pela mais nova "modernidade literária"), também gera seus subprodutos e dividendos para o autor, tais quais as cinco obras suas que já estão em produção para serem adaptadas para o cinema, em graus mais ou menos adiantado de produção: "Sufoco", "Survivor", "Diary", "Invisible Monsters" e "Lullaby". Não deixa de ser a hiperinformação, mesmo que repleta de excelentes qualidades literárias, pronta para consumo.


     



Fontes de pesquisa: Wikipédia, Imdb e duplipensar.net